A Amazônia Legal — região que abrange nove estados e mais de 5 milhões de quilômetros quadrados — continua no centro das atenções ambientais do Brasil e do mundo. Um relatório trimestral divulgado na primeira semana de junho pelo Observatório do Clima, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e ONGs de monitoramento, traz um retrato misto: em algumas frentes, há sinais de recuperação; em outras, a pressão sobre a floresta permanece intensa.

Entre janeiro e março de 2026, o desmatamento em unidades de conservação federais caiu 12% em comparação com o mesmo período de 2025. Áreas como a Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, e o Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, registraram redução significativa de alertas de desmatamento. Especialistas atribuem o resultado à intensificação do patrulhamento, ao uso de imagens de satélite em tempo quase real e à atuação de brigadas indígenas e extrativistas.

O arco do desmatamento

Por outro lado, municípios do sul do Pará, leste do Mato Grosso e oeste do Maranhão — região conhecida como «arco do desmatamento» — seguem com taxas elevadas de supressão vegetal. A expansão da fronteira agrícola, a especulação fundiária e o garimpo ilegal continuam como principais vetores de destruição. Em Altamira (PA), um dos maiores municípios da Amazônia em extensão territorial, alertas de desmatamento cresceram 8% no trimestre.

«Temos ilhas de sucesso em áreas protegidas, mas o quadro geral ainda é preocupante. A floresta não conhece fronteiras administrativas — o que é destruído num município afeta toda a bacia», diz Paulo Moutinho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Moutinho coordena um projeto de monitoramento que cruza dados de satélite com informações de campo coletadas por comunidades tradicionais. O objetivo é identificar padrões de desmatamento e orientar ações de fiscalização. Segundo ele, a integração entre ciência e conhecimento local tem se mostrado mais eficaz do que abordagens puramente repressivas.

Indígenas e extrativistas na linha de frente

As terras indígenas e as reservas extrativistas aparecem no relatório como os territórios com melhor desempenho em conservação. Em terras Yanomami, no norte de Roraima e Amazonas, a retirada de garimpeiros ilegais — operação iniciada em 2023 e mantida em 2026 — resultou em queda de 34% nos alertas de desmatamento associados à mineração. Ainda assim, especialistas alertam para o retorno gradual de atividades ilegais em áreas de difícil acesso.

Na Reserva Extrativista do Alto Juruá, no Acre, extrativistas de borracha e castanheiros mantêm um modelo de uso sustentável da floresta há décadas. O relatório destaca que municípios com forte presença de economia da floresta apresentam taxas de desmatamento até 60% inferiores à média regional. «A floresta em pé tem valor econômico. Isso precisa ser reconhecido nas políticas públicas», afirma Maria das Dores, líder comunitária da reserva.

Clima e compromissos internacionais

O Brasil assumiu, na COP26 e em conferências subsequentes, metas ambiciosas de redução de emissões e de desmatamento zero até 2030. O relatório trimestral indica que, no ritmo atual, o país está longe de cumprir essas metas. Para alcançar o desmatamento zero, seria necessário reduzir a supressão vegetal em cerca de 90% nos próximos quatro anos — um desafio que exige coordenação entre União, estados e municípios, além de investimento em alternativas econômicas para quem hoje depende do desmatamento.

A transição energética e o mercado de créditos de carbono aparecem como possíveis fontes de receita para a conservação. Projetos de REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) já movimentam recursos em algumas áreas, mas críticos apontam riscos de «greenwashing» e de exclusão de comunidades locais dos benefícios. O debate sobre como monetizar a floresta sem destruí-la permanece aberto.

O que muda na prática

Para o leitor que acompanha a Amazônia de longe, os números podem parecer distantes. Mas eles se traduzem em consequências concretas: qualidade do ar nas grandes cidades (a fumaça das queimadas chega a São Paulo e Brasília), disponibilidade de água no Centro-Oeste e Sudeste (a Amazônia é conhecida como «floresta que voa» por influenciar o regime de chuvas em outras regiões) e na sobrevivência de povos indígenas e comunidades tradicionais.

O Sumário seguirá acompanhando os dados trimestrais e as políticas ambientais que afetam a maior floresta tropical do mundo. Porque conservar a Amazônia não é apenas uma questão ambiental — é uma questão de soberania, de justiça social e de futuro para o Brasil.

Atualizado em 11 de junho de 2026 com declarações do Ipam e de lideranças extrativistas.