Brasília vive, nesta segunda quinzena de junho, um dos momentos mais decisivos do calendário legislativo: a definição do orçamento federal para 2026. A Proposta Orçamentária Anual (POA), enviada pelo Executivo ao Congresso em abril, prevê um total de despesas da ordem de R$ 5,8 trilhões — valor que, embora nominalmente superior ao de 2025, representa um ajuste real quando se considera a inflação acumulada e as despesas obrigatórias que consomem a maior parte da receita.

O debate não é apenas técnico. Ele reflete disputas ideológicas, pressões de grupos de interesse e a necessidade de equilibrar contas públicas em um cenário de crescimento econômico moderado. Para o cidadão que depende do Sistema Único de Saúde (SUS), das universidades federais ou de obras de infraestrutura em sua cidade, o que está em jogo é concreto: filas de espera, vagas em cursos, asfalto e saneamento.

Saúde: entre o mínimo constitucional e a realidade

A área da saúde concentra uma das principais polêmicas. A Constituição Federal estabelece que a União deve aplicar, no mínimo, o valor apurado no exercício anterior acrescido da variação nominal do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2025, o montante ficou em torno de R$ 220 bilhões. Para 2026, o governo propõe manter o piso constitucional, mas parlamentares da oposição argumentam que isso representa, na prática, um congelamento real dos recursos, dado o envelhecimento da população e o aumento da demanda por procedimentos de média e alta complexidade.

«Manter o piso constitucional não é aumentar investimento. É cumprir a lei mínima enquanto a fila do SUS cresce», afirma a deputada Carla Nunes (PSB), relatora da comissão mista de orçamento na Câmara.

Do lado governista, a defesa é de que a estabilidade fiscal permite previsibilidade e evita cortes abruptos. O ministro da Saúde tem destacado programas como a ampliação da atenção primária e a redução do tempo de espera para exames de imagem em regiões prioritárias. Ainda assim, sindicatos de médicos e enfermeiros alertam para a precarização do trabalho em hospitais federais e para a falta de recursos para aquisição de medicamentos de alto custo.

Educação: universidades e ensino básico

Na educação, o cenário é semelhante em termos de tensão. O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e o orçamento das universidades federais dependem de emendas parlamentares e de decisões da comissão de orçamento. Em 2025, reitores de instituições como UFRJ, UFBA e UnB denunciaram dificuldades para pagar contas de água, luz e pessoal administrativo. Para 2026, a proposta do governo prevê um reajuste de 4,5% no orçamento das federais — índice que, segundo a Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), fica abaixo da inflação projetada e do custo real de manutenção.

O ensino básico, por sua vez, depende em grande medida de transferências a estados e municípios. O Fundeb, principal mecanismo de financiamento, foi reestruturado em 2020 e hoje garante um piso nacional por aluno. A discussão no Congresso gira em torno de complementações federais para municípios com menor capacidade de arrecadação e de programas de formação de professores.

Infraestrutura e emendas parlamentares

Um terço do debate orçamentário envolve obras de infraestrutura: rodovias, portos, saneamento básico e conectividade digital. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), relançado em 2023, continua como principal veículo de investimentos federais em obras. Para 2026, estão previstos R$ 62 bilhões em despesas do PAC, com foco em habitação popular, transição energética e dragagem de portos no Norte e Nordeste.

As emendas parlamentares — os chamados «orçamentos paralelos» — também entram na equação. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal fixou regras mais rígidas para a transparência e a destinação desses recursos. Para 2026, a tendência é de manutenção do valor total de emendas, com maior controle sobre a execução. Deputados e senadores defendem que as emendas permitem que parlamentares atendam demandas específicas de suas bases; críticos apontam riscos de clientelismo e de desequilíbrio entre regiões.

O que esperar da votação

A votação final da LOA está prevista para julho, após a análise pelas comissões mistas de plano, orçamento e fiscalização. Entre agora e lá, devem ocorrer intensas negociações entre governo, oposição e o chamado «centrão» — bloco de partidos que detém votos decisivos em ambas as casas.

Para o eleitor, o acompanhamento do debate orçamentário é uma forma de entender como o dinheiro público será gasto e quais prioridades o Congresso estabelece. O Sumário seguirá cobrindo as votações, os destaques aprovados e os impactos concretos nas políticas públicas. Afinal, orçamento não é apenas planilha: é a tradução das escolhas políticas que afetam a vida de 215 milhões de brasileiros.

Atualizado em 12 de junho de 2026 com declarações da relatora da comissão mista de orçamento.